sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

Jean-François Lyotard

«[…] O eclectismo é o grau zero da cultura geral contemporânea: ouve-se reggae, vê-se western, come-se McDonald ao meio-dia e cozinha tradicional à noite, usa-se perfume parisiense em Tóquio e roupa rétro em Hong-Kong, o conhecimento é matéria para concursos televisivos. É fácil encontrar público para as obras eclécticas. Tornando-se kitsch, a arte lisonjeia a barafunda que reina no "gosto" do amador. O artista, o galerista, o crítico e o público comprazem-se juntos seja lá no que for, e a hora não é favorável ao rigor. Mas este realismo do "seja lá o que for" é o do dinheiro: faltando critérios estéticos, continua a ser possível e útil medir o valor das obras em função do lucro que se pode obter com elas. Este realismo acomoda-se a todas as tendências, como o capital a todas as "necessidades", desde que as tendências e as necessidades tenham poder de compra. Quanto ao gosto, não temos que ser delicados quando especulamos ou nos distraímos. A pesquisa artística ou literária está duplamente ameaçada: pela "política cultural" uma vez, e pelo mercado da arte e do livro outra. Aquilo que lhe é aconselhado ora por um canal, ora por outro é fornecer obras que sejam primeiro relativas a temas que existam aos olhos do público a que se destinam, e depois que sejam feitas ("bem formadas") de modo a que esse público reconheça aquilo de que se trata, compreenda o que se significa, possa, em conhecimento de causa, dar-lhes ou recusar-lhes o seu assentimento, e até, se possível, extrair das obras que aceita alguma consolação.»

[in O Pós-moderno Explicado às Crianças: Lisboa, trad. Tereza Coelho, Publicações Dom Quixote, 1987]

1 comentários:

Anónimo disse...

A propósito da condição do homem moderno e post-moderno Nietzsche terá afirmado que estes comem de tudo ,culturalmente e não só..como afirma o texto de Lyotard..nesta miscelânea o homem perde e os produtos culturais reflectem essa realidade,decaido na condição de Homo pamphagus a cultura serve-lhe o gosto e seja por maquinaria politica ou económica que visam o voto ou o lucro a arte decai mum trista lamaçal...mas como não ser assim e não de outro modo(?) para evitar a congestão o melhor mesmo é ter um bom estomago mesmo quando não se quer comer de tudo...E se o estômago for de ruminante e o intelecto de pos moderno ....basendo-se no perspectivismo e no relativismo moral..reequacionar tudo..talvez que no fim ainda reste um corpo saudável e um espirito fino e delicado capaz de criar e comtemplar a beleza do belo e a bondade do bem ..mas para isso temos de ser ainda melhores que os gregos antigos , só que para tal até a nossa melhor arte tem de servir a nossa maior vitalidade..